sábado, 21 de novembro de 2009

Seleção para habilidade materna em gado de corte

A habilidade materna está relacionada com a produção de leite e com o cuidado da mãe com a cria. Ao selecionar-se para habilidade materna se deseja identificar vacas que apresentem maior cuidado com a cria e que produzam maior quantidade de leite. A partir disso, surge um questionamento básico, como medir a produção de leite e o cuidado da vaca com o bezerro em bovinos de corte, com intuito de avaliar a habilidade materna?
Existem técnicas que utilizam o peso do bezerro antes e após as mamadas como indicador para a produção de leite. Mas, na maior parte das situações, a habilidade materna é medida, de forma indireta, a partir do desempenho das crias no período pré-desmame, por meio do peso ao desmame, do ganho de peso do nascimento ao desmame, por exemplo. Essa prática pode tornar-se uma grande fonte de erros quando não se considera que as medidas de características do período pré-desmame contém a expressão do potencial genético do bezerro para ganhar peso e a expressão do potencial genético da vaca para cuidar da cria e produzir leite.
Dessa forma, ao observar características de desempenho pré-desmame, teremos a expressão de 2 genótipos, o primeiro, do bezerro, chamado efeito genético direto, representando o potencial genético de crescimento do próprio animal e o segundo, da vaca, representando a habilidade materna, chamado de efeito genético materno.
O impacto dos efeitos genéticos maternos sobre o peso ao desmame da cria, pode ser negativo ou positivo, pois, a habilidade materna, para o bezerro, é um efeito ambiental que pode inibir ou permitir a expressão total do potencial de crescimento do animal no período pré-desmame. Dessa forma, filhos de vacas com habilidade materna superior têm maiores chances de apresentarem desempenho superior até o desmame, desde que tenham potencial genético de crescimento.
Enquanto, para cria, a habilidade materna é um efeito ambiental, para mãe, é um efeito genético herdado dos pais, de maneira que a superioridade genética de uma vaca para habilidade materna é fruto de genes herdados de seus progenitores, pois ambos contribuíram com 50% do seu valor genético.
É importante lembrar que os efeitos genéticos maternos sofrem ação de efeitos ambientais que permitem ou inibem a expressão do potencial genético do indivíduo para habilidade materna. Os efeitos ambientais atuantes sobre a habilidade materna são resultantes das diferenças entre fazendas (relacionados com o clima, qualidade do solo, mão de obra e manejo), das diferenças entre os anos e as estações de nascimento dos bezerros, das diferentes idades da vaca ao parto, pois o comportamento da produção de leite está associada à idade da vaca, com aumento da produção até cerca de 10 anos seguido de redução gradativa.
Além disso, existem situações a que as fêmeas são submetidas que podem exercer impacto sobre o potencial genético para habilidade materna durante toda a vida produtiva da vaca, como exemplo, pode-se citar as perdas de tetos, ou deficiências no manejo nutricional que impedem o desenvolvimento adequado do sistema mamário. Os resultados dessas situações sobre a medição da habilidade materna, são chamados de efeitos permanentes de ambiente, porque exercem efeito, de forma permanente, sobre o desempenho de todas as crias das vacas e porque não estão relacionados com o potencial genético das vacas.
Dessa forma, para que a seleção para habilidade materna, baseada em características de desempenho no período pré-desmame, seja eficiente, é necessário a utilização de ferramentas que calculem adequadamente os valores genéticos maternos, bem como, os efeitos ambientais envolvidas na expressão destas características.
Para isso, é necessária a construção de uma estrutura organizacional, que permita a coleta minuciosa das informações de desempenho, dos efeitos ambientais e da genealogia dos animais, bem como o registro em arquivos de dados e o processamento dos dados a partir de programas computacionais específicos, resultando nas diferenças esperadas das progênies (DEPs), que permitirão a seleção de animais com potencial genético superior.
Deve-se acrescentar que, para seleção de animais com elevado potencial genético para habilidade materna, é necessário que os arquivos de dados contenham informações das características de desempenho pré-desmame medidas nas mães e filhos, seus parentes e respectivas progênies, além do maior número possível de vacas com mais de um filho, vacas que tenham netos e touros com filhas e netas avaliadas, o que permitirá a utilização de dados dos animais aparentados, a partir da estrutura criada pelos laços genéticos existentes entre os parentes, aumentando a precisão das DEPs obtidas.
Atualmente, no Brasil, existem diversas instituições que consideram esses aspectos para o cálculo das DEPs para habilidade materna, gerando informações precisas. Muitas dessas instituições divulgam seus resultados em sumários de touros, que trazem também informações referentes a vacas e animais jovens.
A escolha criteriosa de touros, utilizando as DEPs, como ferramenta, pode resultar em ganhos genéticos expressivos para habilidade materna, porém é importante ressaltar, que estes ganhos serão observados somente quando as filhas destes touros parirem.
O sucesso da seleção de vacas com maior habilidade materna resulta na escolha de animais com elevado potencial para produção de leite, e conseqüentemente, mais exigentes quanto ao manejo nutricional e sanitário, o que pode ser um problema nos sistemas em que alterações na forma de manejar os animais não são consideradas.
Por outro lado, a seleção para habilidade materna é extremamente importante no contexto de intensificação da produção de bovinos de corte, em que o tempo de permanência do bezerro com mãe representa um terço ou mais da vida do animal. Aliado a isso, é importante salientar, que no período pré-desmame a mãe é uma das fontes mais importantes de nutrientes da cria, sendo determinante no peso ao desmame e na idade ao abate.
Dessa forma, a seleção para habilidade materna, associada com a seleção de animais com potencial genético para crescimento, com a utilização de planos nutricionais e sanitários adequados e com sistemas de coleta e gerenciamento de informações e comercialização eficientes, pode resultar em aumento da eficiência de sistemas de produção de bovinos de corte.

Um comentário:

  1. Jabu!!!
    Bem interessante,
    Pois quando consideramos animais de corte fica dificil identificar a habilidade materna da aptidão em questão.
    E mais interessante é saber que o melhoramento está ligado na seleção dessas mães!!!

    Muito bom seu texto!!
    Beijo!!

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